corpo
Uma dupla revelação – Vitor Nechi , revista norte p 21 a 23 – 2010
As imagens que cobrem a superfície destas páginas resultam de uma dupla revelação. A primeira decorre do processo – em tempos nos quais qualquer telefone celular faz fotografias, chega a ser comovente alguém desprezar artefatos digitais para produzir retratos e persistir na centenária técnica de sensibiliza grãos de prata com luz. A segunda revelação se refere ao conteúdo que vem a público pela primeira vez, Jacqueline Joner disponibiliza para publicação parte do impressionante ensaio Que tem como modelo o Mauro, seu companheiro paciencioso que pousou em cinco sessões de no mínimo oito horas realizadas em outubro e novembro de 2004. Embora as fotos não sugiram um cenário específico, é no ambiente doméstico que ocorreu a obtenção de cerca de mil imagens. A mobília foi afastada e um rolo de papel preto fixado na parede serviu de fundo infinito. A lâmpada presa no forro contou com o reforço de uma luz de estúdio e a combinação das duas fontes incidiu sobre o corpo magro, muito magro do modelo de pele negra coberta por azeite de oliva. No interior da câmera Nikon 35mm, rolos e rolos de filme Tri-X ASA 400, da Kodak, deslizavam ao ritmo do mergulho da fotógrafa em busca do específico.Jacqueline, uma das mais importantes fotógrafas do Rio Grande do Sul, decidiu que o processo não seria pautado por muita sofisticação técnica, mas, mesmo assim as imagens resultantes precisavam comover e se distinguir pela qualidade. Para tanto foi fundamental a segura direção da autora, que conduziu seu modelo-marido as sessões vertiginosas que chegavam a exaustão. Ao final de cada uma, o casal guardava o equipamento, limpava o ambiente, tomava banho e desabava na cama para amainar as dores que se apoderavam dos corpos da fotógrafa e do modelo. Uma vez assisti a uma apresentação de fotos que cobria os principais trabalho de Jacqueline desde os anos de 1970: os colonos emoldurados pelo cenário rural, artistas em seus habitats, empresários mimetizamos em seus impérios, casais encontrados pelo interior do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina… ao final Indaguei: onde vais chegar agora? A curiosidade emanava da percepção de que ela havia mapeado o corpo humano em diversas geografias e proporções, da imensidão do campo ao gabinete, do corpo inteiro ao retrato. Instigada pela pergunta, Jacqueline definiu-o conceito do ensaio que hora se revela: queria chegar aos porosos pelos, aos fluídos. Queria a abstração, o plano fechado. Fragmentos destes quereres se encontram nestas páginas.
Vitor Nechi , revista norte p 21 a 23 2010

























