Diario_de_Bordo
Não se aproximem demasiadamente afoitos da câmera empunhada por Jacqueline Joner. Pode parecer uma câmera comum mas não e’ Essa máquina está possuída por um poder único, ao qual somente vaidade ou ignorância extremas impedem de reconhecer, A câmera, nas mãos de Jacqueline, capta as nuances da luz, do tecido, da epiderme, da madeira, do aço, Mas, e eis seu poder enorme, capta, mais que o olho, mais que o tato, o que somos por dentro e nem sempre sabemos. Se é um poder mágico ou sobrenatural, não tem importância. É o poder do artista. Na frente dessa câmera incorruptível o tolo é irremediavelmente tolo, assim como o vaidoso não pode esconder seus delírios mais ridículos, nem o medíocre sua mediocridade. Nem amargura ou ironia, tampouco visão cáustica da vida ou desencanto. Suas fotos fixam o lúdico, a nobreza e a dignidade do fotografado, quando as tem, estão lá, intactas, e a angustia, o tédio, a esperança, a coragem e os sonhos mórbidos. A arte deJacqueline é feita de uma intuição profunda, essência da grande arte. Seu poder não se explica com filtros miraculosos, qualidade do papel ou laboratórios sofisticados. Jacqueline Joner fotografa a alma das pessoas. Não há explicação para poder tão terrível.
TABAJARA RUAS
1989
Bemfam – Populaçao Brasileira
A mão estendida de uma criança, um barracão, a roupa esfarrapada, um olhar resignado com o questionamento apenas esboçado – será que só isso é a realidade social brasileira? São as imagens com algumas excessões traçadas pelos fotógrafos profissionais e amadores participantes promovido pela Fundação Nacional do Bem Estar Nacional da família (Bemfam). A montagem de 60 trabalhos selecionados a partir de 696 enviadas por 201 participantes do Brasil inteiro, distribuídos sobre os painéis pretos bem iluminados nesse novo espaço paulista reservado exclusivamente à fotografia, (Salão Fuji, rua major Diogo, 670) – é limpa e sóbria. Um visitante ao meu lado observa: “Que violência!” Mas não há nenhum flagrante de espancamento: nenhum sinal de ódio ou revolta. No entanto, das fotos desprende-se uma sensação de tristeza enraizada, decidida a se tornar companheira inseparável realidade social brasileira. E, portanto,o traço forte do povo brasileiro é a alegria, que nessa mostra ficou apenas na foto de um sorriso pré fabricado estampado em uma máscara de Carnaval ou na figura de um repentista contando a “História da Princesa da Pedra Fina”. Somente em alguns trabalhos podem=se perceber, atrás da imagem, um trabalho sério, consciente, adulto, uma pesquisa social profunda. Através das imagens sintéticas de Jacqueline Joner, integrante do grupo ‘Ponto de Vista”de Porto Alegre, ganhadora do primeiro prêmio, o espectador mergulha na vida do colono gaúcho. Chimarrão, calça limpa remendada, chapéu companheiro inseparável no trabalho e no descanso. As mãos, cor e cheiro da terra, a hierarquia pressentida dentro da célula familiar unida e fragmentada, segundo as leis entranhadas da idade e sexo. O olhar da mãe, a vida no braço (a criança com a barriga desnuda no colo) e no ventre, que cheio, faz estourar o vestido “cada dia mais curto”, segue, acompanha, penetra e arrasta o espectador para um diálogo mudo. Estes trabalhos e alguns outros não são instantâneos captados por acaso. E isso nos leva a refletir a que ponto é possível resumir a realidade social numa só foto ) já que a exposição resulta do agrupamento de fotos únicas de muitos concorrentes}. Essa foto, uma fatia recortada dentro da realidade, deveria ser ao mesmo tempo portadora excepcional de uma mensagem inequívoca informativa e emocional e isso é uma tarefa muito difícil. “Concientizar sobre os problemas de ordem social e econômica provocados pela explosão demográfica e buscar as soluções…” – o objetivo deste concurso promovido pela Bemfam – é uma tarefa importantíssima e alcançável pela fotografia. Mas primeiro tornaria, se necessário, conscientizar os participantes de que a realidade social não equivale a estética da miséria. A realidade social tem estrutura muito complexa, distribuída em várias camadas, planos e perspectivas e feita de gente, tornando-se tão rica como rica é a natureza do ser humano que sofre e se diverte, trabalha e luta, sobrevive e vive.
STEFÂNIA BRIL
O Estado de São Paulo 26 de fev de 1981
O FUNERAL DE OLINTO SOITEIRA
Pouco se sabe de Olinto Teixeira de Araújo, Mas se conhece que ele tinha 53 anos. E nessa idade o homem já sabe o que foi feito de sua vida. Olinto não tinha conseguido muito: arrastando a fome de seus oito filhos estrada a fora, vivia do serviço de trabalhar na roca de patrões que mudavam a cada virada de inverno. Tinha conseguido também um nome próprio _ chamavam-np Soiteira, pela habilidade que demonstrava ao lidar com a confecção de objetos de couro. Mas isso nunca lhe rendeu maiores ganhos. Nos últimos anos, Olinto viveu nos contornos da região do Planalto Médio, maior zona agrícola do Rio Grande do Sul, beirando como outros sem-terra, a região do Alto Uruguai, onde se localiza a mais pobre zona de minifúndios do Estado. Sabe-se também que o Soiteira era um dos homens que acamparam na Encruzilhada Natalino, formando, junto com seus companheiros, expulsos da reserva indígena de Nonoai, ou nômades famílias de agricultores de beira de estrada, o mais forte movimento pela terra já conhecido em território gaúcho. No dia 23 de junho de 1983, uma quinta-feira embarrada depois de vários dias de chuva, Olinto foi atropelado numa estrada de chão batido no interior do município de Planalto, encravado na mesma região minifundiária, a pouco mais de 470 quilômetros de Porto Alegre. Uma ambulância da prefeitura ainda o levou a um hospital próximo, no município de Passo Fundo. Mas lá o corpo já chegou sem vida. E assim foi conduzido para o acampamento de colonos provisoriamente instalado no município de Ronda Alta – para onde tinham sido levados os sem-terra de Natalino. Olinto foi o sétimo a morrer entre os que recusaram a oferta de terras no norte do país. E este foi o sétimo pano branco amarrado pelos colonos no alto da Cruz de Natalino, o símbolo da resistência. Olinto foi enterrado sem honras. Ao baixar para a cova, o corpo estava recoberto apenas por alguns trapos cedidos pela vizinhança do cemitério.
HUMBERTO ANDREATTA
1983
A sua força está no seu corpo, pés e mãos. E também numa vontade imensa de vencer, para sobreviver. O ensaio “O Funeral de Plinto Soiteira ”Centro Cultural São Paulo, rua Vergueiro, 1000 começa com fragmentos. Os pés e as mãos, ferramentas já gastas, a pele-terra rachada, sulcos profundos, memórias. A exposição parece feita das imagens arrancadas de um livro, o da vida. Captá-la não como mero observador passageiro. Fotógrafo intruso? Sim, mas participante, a conviver horas, dias, semanas com os colonos gaúchos (o livro Santa Soja) e a “conferir” hoje as existências teimosas que só abandonam a luta para descansar na cova. É difícil falar da ëdição” das imagens quando os fotógrafos editaram as vidas. Parece insólito mas, para atingir o público, até as vidas tem de ser bem editadas. E a equipe dos fotógrafos o consegue. Eles esquecem o ‘eu-fotógrafo”. É só você, o colono, que interessa. Por isso a equipe, integrada por Jacqueline Joner, fotógrafa coordenadora do projeto, Luiz Abreu e Genaro Joner, convidou outros fotógrafos, Carlos Rodrigues e Paulo Dias, da Caldas Jr. e Waldir Friolin da Zero-Hora que dispunham de documentação complementar. O que conta realmente é fazer um trabalho sério, exaustivo, não importa o autor. Mas, querendo eclipsar-se eles permanecem presentes, através das imagens, cada um espelhando sua própria personalidade, o seu modo de ver. Os retratos de Jacqueline Joner não são os “restos parados em frente a câmera”. Vivos, deixam penetrar sempre algo dentro da imagem: a fumaça do cigarro (aquele enrolado), a esconder e a revelar o rosto; o fundo “não neutro”, de pano ou papel feito do campo florido, dependurado na parede, contrasta com a expressão sofrida, mas não vencida do colono. Os rostos dos colonos, quando sozinhos, tristes e acanhados, sem apoio algum mesmo dentro de sua moradia, tornam-se vivos e fortes quando juntos, a levantar a mão ou o chapéu para manifestar, reivindicar. A luz penetra toda e exposição; a luz do sol que se levanta e deita junto com o colono, e a de dentro, luz-brilho a se espelhar na superfície polida das panelas-membros da família. Como o chapéu que se torna parte do corpo do colono a acompanha-lo sempre, na vida, na morte. A exposição começa com fragmentos vivos, termina com o corpo fragmentado, morto. Autópsia feita pela imagem (montagem ousada de Jacqueline Joner). Visões do corpo öbsecado” e amarrado com pano branco. O mesmo que envolve a cruz, companheira de Olinto na sua última caminhada; o mesmo que, já trapo, cobre o rosto rasgado da mulher durante o velório. O de Severino? O de Olinto? E o chapéu, amigo fiel que solene se vestiu de luz para acompanhar Olinto até o fim e, pendurado na cruz ficar perto de seu dono, Para protegê-lo, até embaixo da terra.
STEFÂNIA BRIL
O Estado de São Paulo 1 de dez de 1983
Não mais capina, não mais o arado.
E 53 anos depois que veio ao mundo para fazer produzir o grão fincado terra, o colono Olinto Soiteira, de Nova Ronda Alta, Se incorporou a própria terra. Sua história será contada apenas durante a efêmera sobrevivência do sétimo pano brancoAmarrado no alto da cruz de Natalino – a sétima morte entre os que resistiram na Encruzilhada. Olinto, ao cabo da vida, Não cumpriu com sua tarefa de destino. Faltou-lhe onde colocar a semente. O breve relato da sua morte é o resumo da saga de uma legião de sacrificados, os sem-terra, nascidos no estado-celeiro De um país que seria o próprio celeiro do mundo. Num curto período de 10 anos, esses colonos, a quem foi entregue Trabalho de semear o chão, acabaram tendo que mudar o rumo da vida. Não mais capina, não mais o arado. Nem a Criação, as rezas unidas em família, as vezes nem família. Mudou a cara, e expressão, tudo: veio a fome, que não havia. Faltou a roupa, e o inverno tornou-se mais frio. Foram todos para o Natalino, e de lá se espalharam em busca da sobrevivência. Mendigaram na capital. A custo, alguns Seguraram lágrimas e saudades e tomaram a rota do Norte. Outros,, hoje, ainda resistem. Mas aos poucos, acabaram Olinto – serão, em breve, o oitavo e o nono e os próximos panos brancos açoitados pelo vento na cruz da Encruzilhada.
HUMBERTO ANDREATTA
Porto Alegre – Solar dos Câmara 22 julho a 6 de agosto de 1983
Via crucis dos colonos gaúchos
A objetiva da câmera não capta o essencial, apenas tenta reproduzir determinado enquadramento da realidade. Em raríssimas ocasiões ela sucumbe às batidas do coração de quem está além do olho selvagem e mecânico para documentar a trajetória dos deserdados. A mostra O Funeral de Olinto Soiteira”, que reune fotografias da ex-editora fotográfica do Coojornal de Porto Alegre, e dois outros excelentes profissionais, Luiz Abreu e Genaro Joner, é um caso exemplar: trata-se de um brilhante e sensível registro de como a monocultura da soja, no Rio Grande do Sul, destruiu não apenas a terra mas os que viviam e ainda vivem nela. Impossível controlar a emoção diante da falta de perspectiva daqueles que acreditaram na propaganda oficial e vivem, hoje, a morte de ontem e do amanhã. Exatamente como colono Olinto Teixeira de Araújo, morto no dia 23 de junho deste ano e enterrado com trapos rotos cedidos por outros miseráveis da maior zona agrícola do Rio Grande do Sul, sob uma chuva que pronuncia dias piores para quem acreditou em dias melhores. Triste ironia. Inconsolável memória. Jacqueline chegou a Nova Ronda Alta, município para onde foi conduzido o corpo sem visa de Olinto Teixeira, mais conhecido pelos companheiros como Soiteira, por trabalhar com objetos de couro, um dia após o colono ter sido atropelado numa estrada do município de Planalto. Vinha acompanhada de seu irmão, Genaro, também fotógrafo, para documentar a saga dos famintos e desesperados colonos, e, ao chegar, colocou de lado a máquina com o seu olho selvagem, Tinha outra missão a cumprir: amamentar o pequeno Arnaldo, um menino de oito meses, cuja mãe, igualmente faminta, nada tinha a oferecer além de magras tetas sugadas pelo vampirismo do modelo exportador. Confesso que é difícil traduzir com palavras essa situação limite. Uma foto arranca de tua garganta um grito ancestral, bíblico, de quem não contenderá, nem gritará, nem ao menos será ouvido nas praias: uma criança, quase um bebê, com olhos contaminados pela doença e invadidos por pequenas moscas, dessas que acompanham os séquitos de morte e marca, o final de uma saga melancólica de dor e miséria. Essa saga, no caso da mostra resulta dos dez anos de monocultura da soja num dos mais ricos Estados brasileiros, da expansão dos latifúndios, da situação cada vez mais difícil dos colonos submetidos ao garrote vil da política agrícola. Hoje no Rio Grande do Sul, segundo dados da Federação dos Trabalhadores na Agricultura, existem 140 mil famílias sem terras. Há quatro anos, os três fotógrafos autores da mostra do Centro Cultural,em parceria com Eneida Serrano publicaram um livro-relato dessa angustiante situação, “Santa Soja”, de certo modo um prólogo das impressionantes fotos que exibem agora na mostra Ö Funeral de Olinto Soiteira, uma síntese da angustiante sucessão de acontecimento que prolongam a morte, antes, existia vida. Os políticos, unidos a Thanatos, patrocinam esse desespero. A câmera apenas registra. O olho selvagem da máquina também é o do homem.
ANTONIO GONÇALVES FILHO
Folha Ilustrada 9 de novembro de 1983 pag 35
Jacqueline Joner
Em 1983, a sensibilidade do jornalista Antonio Gonçalves Filho feriu-se numa cara de criança, em P&B, os insetos vicejando ao redor dos olhos, Sugando feridas e ranhos, o menino com face retorcida para um choro que não vinha nunca: cara, bichos, choro – tudo convivia em paz Sem perspectiva e há tempos “Confesso que é difícil traduzir com palavras esta situação limite ”escreveu ele na Folha de São Paulo. “É uma foto que arranca da tua garganta um grito ancestral, bíblico…” Era uma das centenas de fotos da agricultores feita por Jacqueline Joner. “Certas fotos de Jacqueline me lembram quadros de Millet, aquele que influenciou Van Gogh ”escrevera alguns anos antes – em 1979 -Ignácio de Loyola Brandão. Outras são classes no estilo épico=caboclo como se Eisenstein tivesse passado pelo Brasil. Ela organiza o claro-escuro e a distribuição dos personagens de uma forma clássica” escreveu a atual crítica de ARTE de Veja, Angélica Moraes Claro escuro, Luzes e Sombras. Ano passado Jacqueline fez para MPM/Samrig exatamente isso: Luzes e Sombras, um Olhar sobre o Século, com os retrato dos melhores escritores gaúchos. Retratos. Jornalismo fotográfico é momento, é movimento? Se existia entre nós esta convicção, ela caiu com o Diário do Sul. Retratos, belos, inconfundíveis, delatores retratos. ”As fotos de Jacqueline captam o que somos por dentro e nem sempre sabemos ”disse Tabajara Ruas. Que ela não saiba nunca, mas às vezes deixo escapar o gesto e passo os dedos sobre suas fotos. Surpreendo-me sempre de novo, por não detectar reentrâncias, espaços, temperatura própria. As fotos de Jacqueline Joner estão em meia dúzia de livros. Três estão no Georges Pompidou, em Paris. Outras em exposições coletivas itinerantes em salas e museus da Europa e América Central. E agora, a última delas, enfeita postes, muros, paredes e salas do Rio Grande com o rosto sereno de Tarso Genro. Jacqueline não tem auto-retratos. Talvez tema a própria lente. Já pensei em fotógrafa-la enquanto dorme. Fico por longos momentos observando os quase imperceptíveis movimentos da boca, dos olhos, os murmúrios. Por fim , desisto.
AYRTON KANITZ
O Continente pag 24 1983
COLONOS
Hoje faz um ano que ocorreu o massacre de Carajás. Hoje, também, os integrantes da Marcha dos Sem Terra pela reforma agrária chegam a Brasília após dois meses de caminhada. É a luta por um pedaço de terra.O movimento não é novo. Remonta na história, como no fim da década de 70, no Rio Grande do Sul, quando terminava a saga da soja. Foi tão grande a euforia naqueles anos que até músicas folclóricas foram criadas na ocasião. A monocultura desgastou o solo,O colono empobrecido começou a ser expulso de suas terras e saiu em busca de novas paragens. O destino quase sempre era a cidade. Foi nesse cenário que um grupo de fotógrafos gaúchos, Jacqueline Joner, Luiz Abreu, Genaro Joner e Eneida Serrano, documentou, entre 1978 e 1981. o êxodo destes colonos . O movimento ainda não se chamava dos sem terra(MST), mas foi uma das sementes de seu nascimento. O ESTADO resgatou trabalho de um dos fotógrafos gaúchos, Jacqueline Joner, que mostra esse momentosa luta pela terra. Durante três anos ela fotografou a vida desses agricultores, morou com os colonos e acompanhou sua mobilização. Em depoimento em seu livro Ponto de Vista, publicado em 1979, Jacqueline conta: “Tudo começou de uma maneira casual, obrigada profissionalmente a fotografar agricultores, fui aos poucos me envolvendo com o problema do colono minifundiário.”Nesse processo ela contou com as próprias origens, a infância passada em uma pequena cidade do Estado e a descendência de colonos alemães. As fotos em geral são posadas, o que atesta o envolvimento fotógrafo/fotografado.Nesse tipo de situação torna-se fundamental a aproximação. É preciso encontrar o melhor meio de obter a colaboração do fotografado. Essa aproximação tornou-se para mim uma necessidade, preciso falar com eles, saber alguma coisa de sua vida, da terra que plantam, talvez seja exatamente isso: preciso estabelecer uma cumplicidade com eles. E afirma: ”Se para mim o minifúndio vive hoje uma situação dura e injusta é evidente que vou procurar acentuar isso em minhas fotos e ressaltar a expressão dos rostos dos colonos mostrando o reflexo da situação. Jacqueline procurou retratar a falta de perspectiva e alegria das feições dos pequenos agricultores. No começo dos anos 70, o colono poderia sorrir nas fotos, diz. Hoje, isso não acontece. “Agora o que se vê nos seus olhos é um brilho de insatisfação e impotência; tentei captar e transmitir isso.”, resalta. A fotografia é o instrumento de que ela dispõe para contribuir com as mudanças. “Sei que sozinhas as fotos não vão mudar nada, mas são uma pequena contribuição dentro de um contexto maior de tendências para tentar acabar com as injustiças sociais.” Para ela não é ousadia dizer que a fotografia faz parte de uma frente ampla de linguagem social que está comprometida com a realidade. Hoje, passados quase 20 anos, as imagens de Jacqueline continuam atuais, As expressões dos rostos, mãos e pés dos sem-terra continuam as mesmas. Talvez por isso Jacqueline hoje não queira falar sobre o tema, mas dá um recado; Olhem para as fotos, elas já dizem tudo, não é preciso nenhuma palavra.”
SIMONETTA PERSICHETTI
O Estado de São Paulo caderno 2 17/04/1987
OS EMPREENDEDORES
Quando o Jornal do Comércio iniciou a publicação da série Os Empreendedores, a significativa repercussão que o trabalho obteve confirmou a nossa expectativa se que havia grande curiosidade dos leitores sobre a história dos homens de negócios e suas iniciativas. Mas foi exatamente isto que reforçou uma pergunta que atormentava a todos na fase de preparação da série: por que ninguém havia realizado uma idéia aparentemente tão óbvia? Foram suficientes cinco ou seis semanas para que descobríssemos a resposta. De uma certa forma, o Jornal do Comércio e os dois esmerados profissionais que realizaram a tarefa, o repórter André Pereira e a fotógrafa Jacqueline Joner, fomos todos vítimas de nossas próprias ambições. De fato, ao definir as regras básicas da série, foram estabelecidos alguns princípios que pareciam extremamente razoáveis para quem desejava concretizar um trabalho editorial de alta qualidade: os perfis ocupariam o espaço padrão de três páginas, as fotos seriam realizadas em estúdio, os títulos das histórias seriam feitos com o nome do entrevistado e um adjetivo que ajudasse a defini-lo e cada um dos vinte e seis personagens, na foto, seria acompanhado de alguma coisa simbólica, normalmente um objeto.Os jornalistas contratados pelo Jornal do Comércio suportaram estoicamente todos os dissabores de uma caminhada que pode ser definida como árdua. E é fácil compreendera razão das dificuldades. As pessoas que podem ser reconhecidas como empreendedores são terrivelmente ocupadas e precisavam abrir dois rombos em suas agendas para satisfazer o jornal. O primeiro problema era o número do horas que precisava ser gastona entrevista com o André(em alguns casos foram necessárias várias secões de entrevistas para arrancar as histórias completas). E o segundo problema que em alguns casos foi muito mais que um simples problema, era conseguir tirar os empresários de suas empresas em Porto Alegre ou no interior, faz-los ir ao bem montado estúdio fotográfico da Jacqueline e gastar bem mais do que um simples par de horas posando para uma fotógrafa – uma das melhores do País, com certeza – que nunca está satisfeita com o resultado que está obtendo. Em várias ocasiões durante o que pode ser denominado de a grande peregrinação, ouvimos secretárias escandalizadas com a simples idéia de retirar seus caríssimos chefes dos seus protegidos escritórios para posar como um modelo qualquer. Ïh meu filho, isto vai ser muito difícil”disse uma delas. Ele não sai nem para reconhecer firma. O pessoal do cartório é que vem até aqui”Depois de vinte e seis semanas nó acreditamos piamente que isso acontece. Mas no caso mencionado, a curiosidadenfoi nossa aliada e o relutante empreendedor terminou comparecendo ao estúdio e adorando a experiência de, repentinamente, se flagrar totalmente controlado pela voz rouca e ao mesmo tempo doce de uma grande artista. A guerra de agendas foi vencida e foram conseguidas 26 entrevistas e 26 fotos, enquanto outros problemas infindáveis surgiam no caminho de Os Empreendedores. As dificuldades eram do tipo marca/desmarca entrevistas e fotos, que objeto usar, como manter o padrão dos títulos sem repetir o adjetivo, por que manter o padrão dos perfis, etc,etc,etc. Mas a série proposta está completa. E, foi possível trocar, através das histórias de nossos entrevistados de suas empresas um painel tão interessante quanto útil sobre essas pessoas capazes de enxergar as oportunidades de negócios e lançar-se à construcaode seus empreendimentos; e, adicionalmente, foi possível mostrar mostrar o que acontece com elas no decorrer do tempo. Certamente algum acadêmico se debruçará sobre essas histórias, em algum momento, com o objetivo de procurar os traços comuns que caracterizam esses homens notáveis e que eventualmente passem desapercebidos aos leitores. A impressão que todos temos, aliás, ao ler os vinte e seis perfis, é simplesmente esta: O sucesso no mundo dos negócios pode ser alcançado pelas mais diferentes personalidades. Mas ficamos sabendo também que ninguém alcança o êxito completo e reconhecido por todos sem determinação, espírito de sacrifício e a convicção inabalável de que no final tudo dará certo.Enfim, deu muito trabalho, ocorreram muitas dificuldades mas resultado valeu a pena. Portanto estamos mais do que preparados para começar tudo de novo no ano que vem aí Portanto a série II.
HÉLIO GAMA FILHO
Jornal do comercio 8/12/1995
Camila, Minha Filha
Do Atelier de Fotographia de Jacqueline Joner tem saído propostas quase sempre ousadas. Os leitores de Zero-Hora vão acompanhar até o fim deste mês a série de retratos que estão sendo publicados no Informe Especial desde a última quarta-feira. Gaúcha, nascida em 1953 sob o signo de capricórnio em Santa Rosa, Jacqueline vive em Porto Alegre desde 1954. Há 20 anos trabalha em jornais e revistas. Entre os ensaios mais premiados está o Funeral de Olinto Soiteira, de 1983, sobre o conflito agrário no Rio Grande do Sul. Três fotos dessa série estão em exposição no Museu de Arte de São Paulo, que até 26 de janeiro mostrará a coleção Pirelli / MASP de Fotografia. Fotos do Funeral também fazem parte do acervo George Pompidou de Paris. A propósito das fotos adquiridas, a jornalista Angelica de Moraes comenta que “Jacqueline consegue potentes imagens de denúncia social sem abrir mão da qualidade estética, conferida pelo refinado uso da luz, que desenha o contorno das figuras contra o cenário escuro, dentro da melhor tradição do cinema realista italiano.” Por avaliações como essa, Jacqueline Joner é a primeira fotógrafa brasileira a integrar a home page da revista norte-americana Photo District News na Internet, com 10 fotos de diversos períodos até a produção atual que podem ser acessadas por meio do endereço: http://www,pdn=pix.com. Em 1990, com as características descritas por Angelica, Jacqueline fotografou os mais inusitados casais, cada par tendo um toldo de lona como único cenário para o ensaio Retratos de Casamento. Convidada pela Revista ZH, Jacqueline produziu o estudo Camila, Minha Filha. “É um carinho que faço nela e em mim”, foi a justificativa maternal. Camila de 14 anos é bailarina da Academia de Dança Salma Chemalle. Carícia feita pela mãe talentosa, três fotos confirmam o apuro técnico, a qualidade estética, o refinado uso da luz.
CARLOS URBIM
Porto Alegre – Zero Hora pag 13 dez de 1996
Coleção Pirelli/MASP de Fotografia
O Museu de Arte de São Paulo (Masp) abriu nesta semana e mantém em cartaz até 26 da janeiro a sexta edição da coleção Pirelli/Masp de fotografia, uma bela e eficiente amostragem anual da qualidade alcançada pelos fotógrafos brasileiros, ao longo das últimas 6 décadas, nos mais diversos segmentos dessa forma de expressão visual. O conjunto soma 62 imagens de 20 autores e, como nos anos anteriores, tem uma importância que vai transcender o período da exibição: adquirido pela Pirelli e doado ao Masp, passa a integrar o acervo do Museu e contar a história da fotografia no país. Um catálogo de 92 páginas completa a documentação dessa iniciativa pioneira, que está rendendo ao Museu o maior e mais representativo acervo público de fotos do Brasil: já são 334 obras de 93 autores, datadas dos anos 40 até a atualidade. Um acervo que, desde l994, vem sendo divulgado em mostras itinerantes pela América Latina e pela Europa. Os fotógrafos representados na versão 96 da mostra São Carlos Eduardo de Almeida, Zé de Boni, Thomas Farkas, Paulo Friedmann, Antonio Gaudério, Jacqueline Joner, Fredi Klieman, Boris Kossoy Bettina Musatti, Eustáquio Neves, Celso Oliveira, Ameris Paolini, Marcos Piffer, Marcos Prado, Scipioni, Piero Sierra, Jean Solari, Luiz Tripoli e Rui Varella. As imagens são das mais diversas temáticas e vocabulários visuais. Abrangem tanto o instantâneo de enquadramento impecável nascido do “momento decisivo” pregado por Cartier- Bresson. Ainda fotos com o foco absurdamente exato em todos os planos em amplas paisagens, ao estilo Ansel Adams. Há por exemplo, flagrantes deliciosos como o que obteve Jean Solari em 1960, no Rio, Juscelino Kubitschek, de gravata e faixa presidencial, penteando os reluzentes cabelos gomalinados antes de cerimônia oficial. Outro bom momento da mostra pertencem a série O Funeral de Olinto Soiteira, crônica visual do conflito agrário dos anos 80 no Rio Grande do Sul, início da agudização de uma tragédia que se espalharia por todo o país. Jacqueline consegue potentes imagens de denúncia social sem abrir mão da qualidade estética, conferida pelo refinado uso da luz, que desenha o contorno das figuras contra o cenário escuro, dentro da melhor tradição do cinema realista italiano, Fotos dessa série pertencem, desde 1983, ao acervo do Beaubourg (Museu de Arte de Paris), Ela é a primeira fotógrafa brasileira a integrar a home page da revista americanaPhoto District News na Internet, com dez fotos de diversos períodos até a produção atual, que podem ser acessadas por meio do endereço http://www.pdn-tix.com. Giorgio Della Seta, presidente da Pirelli no Brasil e um dos membros deliberativos da Coleção, esclarece que a realização de uma mostra anual documentada em catálogo dá visibilidade à fotografia brasileira bem além das fronteiras do País. Üm conjunto de fotos da Coleção já foi exibido na Escandinávia, em Portugal e na Venezuela, estando atualmente em Caracas”.
ANGELICA DE MORAES
Revista ZH 16dez1996
Retratos de Casamento
Casais da vida e do sonho. Metades que se juntam para tecer cartilagem dos anos ou junções do acaso sob uma lente, um olhar, ou a fugacidade de uma noite. Tipos achados pelas ruas, perdidos no litoral ou na fauna urbana. São eles, com suas caras, contrastes e semelhanças que compõem a mostra Retratos de Casamento , da fotógrafa gaúcha Jacqueline Joner, em exposição no terceiro andar da Casa de Cultura Mario Quintana, nesta capital. Ë um passeio por esse poço eterno onde se aloja. Inexplicável, o impulso que une duas pessoas. A fotografia, com sua capacidade de refletir o instante, destampa o véu onde a intimidade se oculta. O resto é apenas procura e dúvida. Jacqueline sabe bem isso. Esses 20 casais são apenas uma amostra pequena , mais universal dos vários tipos de casamento. Há casais de verdade e outros formados ao gosto de Jacqueline. Há casamentos de papel passado, de velhos, de garotos surfistas, entre mulheres e entre homens e a marginalidade que esse tipo de relação encerra. Ou de tipos combinados, colocados um ao lado do outro pela força de um sonho de Jacqueline. Pulos da vida para a imaginação que, fotografados carimbam a ilusão do instante registrado para sempre. São expressões que fustigam a banalidade do estereótipo. Não existe a síntese perfeita. Nem o tipo “casal da propaganda da Coca-Cola”, como ironiza Jacqueline. Existe a nobreza, a pobreza, o imaginário, o rotineiro, o lúdico ou expressões dignas de um Fellini e seus exageros. Dona Branca e seu João, um casal de velhos carolas da Lagoa da Conceição, em Florianópolis, a nudez de Bé e Renata ou a figura bizarra de um Genésio e seus óculos grossos ao lado de Leonor – um típico casal arranjado por Jacqueline. E um outro casamento da própria fotógrafa com o irmão Genaro (também fotógrafo), num auto – retrato. O “casamento do olhar”, como ela denomina. A idéia foi ganhando corpo aos poucos, burilada na inevitável resistência da realidade. O projeto, a princípio chamava-se Porto dos Casais, que ganhou a Concorrência Fiat e uma verba de 8.000 BTNs. Jacqueline começou tentando encontrar casais na rua, mas o resultado não foi o esperado. Então começou a procurar através de pessoas conhecidas. Descartou modelos profissionais e estúdio. Queria a espontaneidade do gesto e até mesmo da luz. Projetou e montou uma tenda de lisolene, um derivado do polipropileno, de baixa densidade, que filtra luz solar. De fundo, usou uma velha lona pintada de ocre. E foi a luta, em Porto Alegre e Florianópolis. E aí também aparece um pouco de Fellini. É aquela história dele deixar claro que está filmando em um estúdio. “Eu também criei, planejei, montei, decidi, domei essa luz”, afirma esta gaúcha de 37 anos, que trabalhou em jornais diários mas se solta mesmo é nos trabalhos de maior fôlego e profundidade. Até que chegou a hora de captar a essência das duas metades juntas. Se eu tenho algum talento é o de chegar nas pessoas, seduzir. E na medida que elas se entregam, o resultado é super expontâneo. ”A idéia do estúdio mambembe encerra também uma relação de igualdade. Eu monto num lugar que não é meu nem deles, ou é meu e deles, e não um estúdio convencional, onde apenas eu domino.” explica. Por trás de tudo, resiste o barro humano em suas formas mutáveis. A frase que abre o convite da exposição, de Laurence Durrel, pinça limites. “Pensava e sofria muito, mas faltava-lhe a força necessária para ousar, condição essencial para realizar seja o que for.” Frente a lente, pessoas dramatizam e tornam-se outras – idealizações de si mesmas ou da própria Jacqueline. Possibilidades documentadas, captadas no instante, que talvez depois se desfaçam, deixando o encontro, como um belo postal pendurado na lembrança.
RENATO DALTO
Caderno B Jornal do Brasil 1990 Jacqueline
Jacqueline Joner inaugura hoje na galeria Fotóptica, sua primeira exposição individual em São Paulo. O tema não poderia ser mais convencional: Retratos de Casamento. Mas como adverte o escritor Ignácio de Loyola Brandão no texto do catálogo, “quebra a cara quem espera o convencional vindo de Jacqueline. Ela tem uma lente diferente dentro da cabeça. Ainda não inventada, só dela, desenvolvida por ela”. A idéia de fotografar casais surgiu quando Jacqueline presenciou um baile popular em Florianópolis. Era uma festa de igreja, às três da tarde, com o sol a pino e duplas de personagens preciosos” lembra ela. “Gente simples, com roupas de cores berrantes modelos bizarros, uma coisa muito feliniana. A vontade de fotografar foi cancelada pela conclusão de que a essência daquela atmosfera iria se perder. O espaço era reduzido e a luz, inadequada. Mas a idéia acabou rendendo um ensaio premiado no concurso Concorrência Fiat – produzido num estúdio ambulante, de plástico translúcido, com a bela textura de uma lona velha como fundo. “Criei um ambiente neutro e evitei qualquer sofisticação técnica”, conta. O equipamento resumiu-se apenas a lente normal de uma Asahi Pentax 6×7. Os casais, autênticos ou reunidos apenas para as fotos. Formam uma galeria rica de significados. A meio caminho entre sociologia e teatro eles garantem observações sutis sobre as relações afetivas e os papéis desempenhados por cada metade do casal. Em alguns deles – como no casal punk – Jacqueline explora os contrastes entre o cabelo longo e a personalidade tímida da mulher e o cabelo raspado e o exibicionismo do homem. Há também os tipos reais, nascidos da observação nas ruas e do convite feito à queima-roupa. Foi como surgiu o casal Genesio e Leonor, que a fotógrafa encontrou nos arredores da Lagoa da Conceição em Florianópolis: ele de óculos fundo de garrafa ar desajeitado, faz par com uma mulher alta e magérrima, de feições duras e determinadas. Jacqueline, 38 anos de idade e 17 de carreira, adquiriu essa aguda observação através da experiência de repórter fotográfica, uma das mais brilhantes de sua geração no Rio Grande do Sul. Suas fotos já participaram da coletiva “Brésil des Brésiliens”, no Centro Georges Pompidou (Paris) e no ensaio coletivo “O Funeral de Olinto Soiteira”, apresentado no Centro Cultural São Paulo em 1983.
ANGÉLICA DE MORAES
Jornal da Tarde 1 ago 1991
GALERIA FOTÓPTICA
Quebra a cara quem espera o convencional, vindo de Jacqueline. Casais. O que ela pode aprontar com casais? Nem tentei imaginar, porque sei que ela sempre me desmente. Jacqueline tem uma lente diferente dentro da cabeça. Ainda não inventada, só dela, desenvolvida por ela. Nenhum laboratório vai conseguir reproduzir esta lente que é impiedosamente perscrutadora, que vai dentro, que mostra o avesso do avesso do avesso, que desmistifica, que brinca, que ironiza …
IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO
De 1 /08 a 30/08 1991
Jacqueline Joner The Soul of Gaucho photography
Porto Alegre é a capital do estado do Rio Grande do Sul, no sul do Brasil. É também a capital da região gaúcha, com uma história de imigração do início do século XX não muito diferente da dos Estados Unidos. Os habitantes, em sua maioria descendentes de imigrantes italianos e alemães, são amigáveis e extrovertidos – afinal, é o Brasil. Bebem chimarrão, uma bebida semelhante a chá, em cuias com canudos de prata, e gostam de carne assada, como comprovam as inúmeras churrascarias da cidade. Embora não seja particularmente bonita, é um lugar acolhedor e caloroso, famoso por seus pores do sol vibrantes, de um vermelho intenso. Jacqueline Joner, obviamente descendente da comunidade alemã do Rio Grande do Sul, nasceu na pequena cidade de Santa Rosa em 1953. A fotógrafa, pequena, atraente e intensa, é repleta de contradições. Apesar de acreditar ter nascido “na hora e no lugar errados”, Joner se tornou uma das fotógrafas mais importantes do sul do Brasil. Com fotografias expostas no Centro Georges Pompidou, em Paris, em museus cubanos e em todos os museus importantes do Brasil, ela ainda mal consegue se sustentar na economia brasileira, finalmente estável, embora extremamente cara. Sua vida se resume principalmente a exposições, livros, trabalhos para revistas . Espiritual, intuitiva e mística, Joner insiste enfaticamente que a vida é mais do que fotografia. “Não fui condenada a ser fotógrafa. Meu trabalho é permeado pela minha vida, e não o contrário. Espírito e intuição são tudo! Dormir até meia-dia pode ser importante. Ser mãe é importante. Viver é importante.” Formada em jornalismo, Joner começou a fotografar logo após se graduar. Seu trabalho até o momento pode ser descrito em três fases distintas. O primeiro projeto, “O Funeral de Olinto Soitera”, teve como objetivo documentar a vida de 140.000 camponeses sem-terra e famílias no Sul do Brasil, numa época em que seu modo de vida estava sendo extinto, após dez anos de monocultura de soja. O projeto começou para Joner quando ela foi ao funeral do colono Olinto Soitera. É típico de Joner que ela tenha ido para tirar fotos, mas acabou deixando a câmera de lado para amamentar um bebê de oito meses cuja mãe não conseguia produzir leite. Mais tarde, ela viajou pela região e fotografou extensivamente. Há ecos, nesta marcante obra documental transcendental em preto e branco, dos projetos americanos da WPA (Administração de Obras Públicas) da década de 1930, em particular de Dorothea Lange, mas Joner não conhecia esses trabalhos clássicos. As fotografias impressionam pela força expressa nos retratos e paisagens impactantes, mas também demonstram uma atenção aos detalhes ilustrativos, revelando o cotidiano, a pobreza e a dureza da vida dos gaúchos. Duas fotos notáveis em que ela se concentrou simplesmente nas mãos e nos pés, respectivamente. Mas essas são mãos e pés que trabalharam a terra por décadas e contam suas próprias histórias. Em outra foto — mostrando um simples quadro de uma mãe e um filho pendurado na parede de um barraco — ela captura a simplicidade elegante e humilde da vida rústica. Imagens tranquilas se misturam com imagens extremamente impactantes, como o retrato devastador de um menino com o rosto coberto de mosquitos. Essas fotos lhe renderam seu primeiro reconhecimento e cinco delas acabaram no Centro Pompidou. “Eu amo essas fotos”, exclama Joner. “Elas representam um período essencial no meu crescimento, mas eu as fiz há 15 anos. Eu segui em frente. A maior parte do meu trabalho hoje é em grande formato, feito em estúdio, com iluminação. Grande parte dele é colorido. Aqui no Brasil, no entanto, as pessoas querem ver essas mesmas fotografias documentais antigas repetidamente. Nos museus, muitas vezes tenho a sensação de que preferem exibir meu trabalho antigo em vez do novo.” Depois de criar essas fotos, Joner começou a receber trabalhos para revistas brasileiras e viajou pelo país. Em 1990, com financiamento da Fiat, ela iniciou seu segundo grande projeto, chamado “Retratos de Casamento”, logo após seu segundo divórcio, numa tentativa de “exorcizar os fantasmas de dois casamentos fracassados”. Viajando para Florianópolis, um belo balneário, Joner entrou num salão de baile de uma igreja. Era “como um filme de Fellini”, ela recorda. “Casais jovens e idosos, às vezes com aparências absurdas. Flores por toda parte e aquelas camisas de poliéster verde-limão dos anos 50. Foi incrível. “Joner decidiu fazer uma série de retratos que, pela natureza dos seus temas, questionariam o conceito de normalidade nas relações pessoais. O único problema no salão era a luz, ou melhor, a falta dela. Trabalhando com uma Asahi Pentax 6×7, Joner montou uma tenda e tentou convencer os casais que lhe interessavam a serem fotografados. “As pessoas adoraram a ideia”, disse-me ela entusiasmada, “mas algumas eram tímidas demais para me deixar fotografá-las. Acabei usando 20 casais. Metade são reais e metade posados, mas todos são baseados em casais que eu realmente vi. ” Neste trabalho, Joner tenta expandir os limites do retrato. Como Fellini, ela se sentiu atraída pelo aparentemente bizarro, como um casal anão/gigante, mas as fotos são respeitosas e repletas de amor. Uma das mais evocativas não foi posada. Nela, há um senhor em primeiro plano e sua esposa com uma vela na mão, desfocada, atrás dele. “Não sei por que pensei na vela”, disse-me ela. “Foi uma intuição… Sete dias depois de tirar essa foto, o senhor faleceu.” Hoje, Joner ainda se concentra em retratos e intuição. Hoje ela fotografa com prazer os homens mais ricos de Porto Alegre. E ainda dorme até meio-dia quando necessário.
Many thanks to Irene Brietzke for introducing me to Joner; to Magdalena Scharf for her excellent translation; and to Miriam Amaral,. for the sunset. –
MARK SIMON
December 1996|PDN 3 7
Uma dupla revelação
As imagens que cobrem a superfície destas páginas resultam de uma dupla revelação. A primeira decorre do processo – em tempos nos quais qualquer telefone celular faz fotografias, chega a ser comovente alguém desprezar artefatos digitais para produzir retratos e persistir na centenária técnica de sensibiliza grãos de prata com luz. A segunda revelação se refere ao conteúdo que vem a público pela primeira vez, Jacqueline Joner disponibiliza para publicação parte do impressionante ensaio Que tem como modelo o Mauro, seu companheiro paciencioso que pousou em cinco sessões de no mínimo oito horas realizadas em outubro e novembro de 2004. Embora as fotos não sugiram um cenário específico, é no ambiente doméstico que ocorreu a obtenção de cerca de mil imagens. A mobília foi afastada e um rolo de papel preto fixado na parede serviu de fundo infinito. A lâmpada presa no forro contou com o reforço de uma luz de estúdio e a combinação e a combinação das duas fontes incidiu sobre o corpo magro, muito magro do modelo de pele negra coberta por azeite de oliva. No interior da câmera Nikon 35mm, rolos e rolos de filme Tri-X ASA 400, da Kodak, deslizavam ao ritmo do mergulho da fotógrafa em busca do específico.Jacqueline, uma das mais importantes fotógrafas do Rio Grande do Sul, decidiu que o processo não seria pautado por muita sofisticação técnica, mas, mesmo assim as imagens resultantes precisavam comover e se distinguir pela qualidade. Para tanto foi fundamental a segura direção da autora, que conduziu seu modelo-marido as essões vertiginosas que chegavam a exaustão. Ao final de cada uma, o casal guardava o equipamento, limpava o ambiente, tomava banho e desabava na cama para amainar as dores que se apoderavam dos corpos da fotógrafa e do modelo. Uma vez assisti a uma apresentação de fotos que cobria os principais trabalho de Jacqueline desde os anos de 1970: os colonos emoldurados pelo cenário rural, artistas em seus habitats, empresários mimetizamos em seus impérios, casais encontrados pelo interior do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina… ao final Indaguei: onde vais chegar agora? A curiosidade emanava da percepção de que ela havia mapeado o corpo humano em diversas geografias e proporções, da imensidão do campo ao gabinete, do corpo inteiro ao retrato. Instigada pela pergunta, Jacqueline definiu-o conceito do ensaio que hora se revela: queria chegar aos porosos pelos, aos fluídos. Queria a abstração, o plano fechado. Fragmentos destes quereres se encontram nestas páginas.
VITOR NECHI
revista norte p 21 a 23 2010
Nova fotografia com retrato neo ruralista de Jacqueline Joner
Pouco conta a história que se aprende nas escolas que quando um raro fotógrafo aparecia nas linhas do interior, a colonada tratava de aproveitar para tirar retrato. As imagens – que eles só recebiam alguns dias depois de passarem por processos de revelação em laboratório escuro – tinham destino certo. Serviam para documentos principalmente, mas também para serem fixadas em molduras dispostas nas paredes das casas ou mesmo para ilustrar obituários e identificar lápides.
Naturalmente todos se aprumavam para o momento especial vestindo as melhores roupas e, por vezes, adicionando adereços e enfeites para um retrato de pose vaidosa de homens sérios, mulheres reservadas e crianças obedientes.
Nos anos 1970 algo mudou quando jornalistas e fotógrafos apareciam nos fundões das comunidades rurais carregando muitas indagações sobre o cotidiano dos ditos pequenos agricultores e de suas famílias. Com que então seus ditos de gente sem muito estudo tinham algum valor?
O curioso é que sempre os intrusos da cidade queriam fazer fotografias para dar peso de veracidade às declarações que eram publicadas. E nem cobravam pelo trabalho de focar câmeras com diferentes lentes por bom tempo no sol a pino. Mas desgostavam se o povo vestisse a domingueira, preferindo que se apresentasse com a naturalidade do seu dia a dia.
Quem já tinha visto jornais ou revistas acerca do cenário no campo, com fotografias de produtores rurais bem apessoados, até desconfiou. Será que mostrando rostos crestados pelo sol, mãos calosas, camisas puídas, calças remendadas, pés mal cobertos com chinelos, rostos desesperançados, sorrisos entristecidos, os retratistas queriam depreciar as gentes das colônias? Não mesmo, ao contrário, queriam dar valor às lides campeiras, isto sim.
Nessa ocasião, foi fundamental o amparo das cooperativas agrícolas estimulando a divulgação de imagens reais dos pequenos produtores que sofriam com a política econômica do governo, incentivando a venda de grãos para o estrangeiro, desmerecendo a bendita lavoura de subsistência do consumo interno.
Assim, nas páginas do jornal O Interior criado em 1974 pela Fundação da Produtividade em Carazinho, e logo depois, em 1976, na revista Agricultura & Cooperativismo, editada pela Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre (Coojornal) para a Federação das Cooperativas de Trigo e Soja do RS (Fecotrigo), os leitores conheceram os registros fotográficos sem maquiagem de famílias, geralmente numerosas, de donos de pequenas frações de terras, minifundiários, meeiros e arrendatários sem propriedade – a gente que nunca aparecia e nem tinha voz na imprensa gaúcha.
A fotógrafa Jacqueline Joner, que chegou a trocar a capital por moradia no interior por cerca de um ano entre 1979/1980, foi testemunha das alterações conjunturais econômicas que remetiam o setor primário velozmente para o domínio da monocultura da soja a partir de um boom na Bolsa de Valores de Chicago em 1973 (*) que deu carona para mecanização das lavouras em busca da maior produção e produtividade e também resultou na evasão de jovens e adultos do campo, rumando para as periferias das cidades maiores.
Com o conceito de que a força desses pequenos produtores estava na união de todos, as cooperativas foram seu último refúgio de esperança diante da avassaladora alternação tecnológica e estrutural da agricultura mundial com um tal de Pacote Verde (*). De propriedade dos próprios produtores, organizados por teóricos e religiosos com Frei Matias (***), as cooperativas proporcionavam o apoio para a sobrevivência das famílias que se adaptavam às leis do mercado das chamadas commodities. “Exportar é o que importa!” proclamava o governo ditatorial de militares naqueles idos (1964/1985). Assim, as entidades cooperativadas prestavam assessoria técnica e se encarregavam de vender a produção dos colonos para o exterior onde o grão da leguminosa era cotado em dólares.
Essa nova comunicação foi fundamental para o agricultor ter acesso a informações sobre produtividade e preços dos grãos e também para realizar a diversificação agrícola necessária para permanecer na pequena propriedade. Nascida em Santa Rosa/RS (1953), formada em jornalismo pela Faculdade dos Meios de Comunicação Social da PUC de Porto Alegre, Jacqueline foi protagonista desta mudança histórica na comunicação visual do estado, inaugurando uma espécie de neo-realismo rural. Ao talento artístico fotográfico inato, ela inovou nos conceitos, abordagens e em recursos técnicos, no uso de iluminação, no enquadramento preciso de pessoas e cenários tecendo, em preto e branco, imagens de beleza plástica extraída, por vezes, da adversidade social da situação vivida pelos colonos e estampada em rostos entristecidos pelo destino.Ela produziu uma rica e volumosa galeria de composições que ilustram o primeiro livro de fotografia editado no Rio Grande do Sul intitulado Santa Soja, patrocinado pela Assembleia Legislativa do RS. Depois, seguiu-se outra publicação pioneira, chamada Ponto de Vista, que elaborou com os parceiros Eneida Serrano, Genaro Joner e Luiz Abreu.Nesta coleção ilumina-se um trabalho que resultou na notável exposição fotográfica “O Funeral de Olinto Solteira”. Registrando o velório empobrecido do colono (****) símbolo da vida toda de família de sem terras, o conjunto de fotos foi exposto primeiramente em 1983 no Solar dos Câmara, na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul e mais tarde na capital paulista no Centro Cultural São Paulo, na rua Vergueiro 1000. A paixão insuprimível pelo retrato vem sendo desenvolvida ao longo de meio século de carreira profissional em obras e exposições como Aleluia (2008), Acaso (2002), A Cor da Impermanência (1998), Os Empreendedores (1996), Retratos de Casamento (1990), Brilho Fugaz (1987). Jacqueline Joner foi editora de fotografia do Diário do Sul (1986 a 1989) e da Coojornal – Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre (1976-1979) e sócia fundadora da agência de fotografia Ponto de Vista (1979). Criou seu estúdio, o Atelier de Photographia (1989) e foi professora de fotografia na Unisinos na faculdade de Jornalismo e Realização Audio Visual. Jacqueline faz parte da Coleção de Fotografia Brasileira do MASP, Museu de Arte de São Paulo (Coleção MASP – Pirelli), Museu de Arte do Rio Grande do Sul, Bienal Internacional de Fotografia de Curitiba e expôs nas principais capitais. Sua obra é reconhecida no Exterior. Já participou de mostras em países como México, França, Nicarágua, Itália, Argentina, Rússia, Suíça e Portugal. Na Encyclopédie Internationale des Photographes de 1839 à nous jour (Editions Camera Obscura), há um verbete sobre Jacqueline. Sua produção também foi tema de um artigo assinado por Mark Simon na revista Photo District News (PDN), de New York e mostrada também em editorial na revista espanhola Digital Foto.
No ano de 1973 ocorreu uma cheia no Rio Mississipi, nos Estados Unidos, que devastou as plantações. A quebra da safra norte-americana criou a oportunidade para a inauguração de uma nova fronteira agrícola no Brasil, através do cultivo da soja. Cotada a 3 dólares por bushel a soja experimentou um aumento drástico atingindo uma média de 10 dólares em junho de 1973. O brasileiro Olacyr Moraes tornou-se o maior produtor individual do mundo, o que lhe valeu o título de “Rei da Soja”. Em 1979 a produção nacional batia a marca de 15 milhões de toneladas. Dos anos 1970 a 2011 a soja foi a cultura que mais cresceu no país, especialmente na região central, onde passou de 500 mil toneladas em 1970 para 44,82 milhões de toneladas em 2011. Uma série de fatores contribuiu para essa expansão, entre eles incentivos governamentais, melhorias nas técnicas agrícolas, mercado internacional em alta, significativa substituição das gorduras animais tradicionalmente usadas na alimentação das pessoas por óleos vegetais, desenvolvimento de um grande parque industrial para produção de insumos e processamento dos grãos, criação de uma rede de cooperativas, melhorias no sistema de transportes e avanços nas pesquisas científicas. O vasto crescimento da produção determinou uma série de mudanças em larga escala e sem precedentes no Brasil. Em primeiro lugar, deve-se principalmente à soja a consolidação da agricultura comercial no país. Também foi a maior responsável pela aceleração da mecanização nas lavouras, pela modernização dos transportes, pela expansão da fronteira agrícola, pelo incremento do comércio internacional, pela modificação da dieta alimentar da população, pela interiorização da urbanização e pelo povoamento do Cerrado. O dinamismo da produção pode ser comparado em importância aos grandes ciclos econômicos do passado, como os ciclos históricos do açúcar, do cacau e do café. O “Pacote Verde” refere-se ao conjunto de inovações tecnológicas e insumos químicos introduzidos na agricultura mundial a partir da década de 1960 (Revolução Verde) visando aumentar a produtividade. Inclui sementes geneticamente melhoradas, maquinário pesado (tratores/colheitadeiras), fertilizantes e agrotóxicos, impulsionando o agronegócio e a produção de commodities, mas gerando impactos socio ambientais.
(***)Nascido Mário Osório Marques mas por um período conhecido como Frei Matias de São Francisco de Paula (1925- 2002) foi sacerdote franciscano, pedagogo, professor e sociólogo.Era formado em Filosofia e pós graduado em Teologia e doutor em Educação. Integrou, desde o início, o quadro docente da Universidade Regional do Noroeste do Estado UNIJUÍ de cuja construção foi o artífice maior. Criou nas comunidades do interior de Ijuí núcleos de base nas quais os minifundiários discutiam e decidiam as ações estratégicas da cooperativa de trigo e soja Cotrijui que também editou o Cotrijornal. A iniciativa espalhou-se pelas demais cooperativas agrícolas e iniciava uma pregação de luta, pacífica mas irredutível, para mudar a imagem dos pequenos, pobres descendentes dos desbravadores.
(****) Quem era Olinto Solteira revelou-o o jornalista Humberto Andreatta assim com a poesia vertente nas palavras: “Pouco se sabe de Olinto Teixeira de Araújo, mas se sabe que ele tinha 53 anos. E nessa idade o homem já sabe o que foi feito de sua vida. Olinto não tinha conseguido muito: arrastando a fome de seus oito filhos estrada a fora, vivia do serviço de trabalhar na roça de patrões que mudavam a cada virada de inverno. Tinha conseguido também um nome próprio – chamavam- no Soiteira, pela habilidade que demonstrava ao lidar com a confecção de objetos de couro. Mas isso nunca lhe rendeu maiores ganhos. Nos últimos anos, Olinto viveu nos contornos da região do Planalto Médio, maior zona agrícola do Rio Grande do Sul, beirando como outros sem-terra, a região do Alto Uruguai, onde se localiza a mais pobre zona de minifúndios do Estado. Sabe-se também que o Soiteira era um dos homens que acamparam na Encruzilhada Natalino, formando, junto com seus companheiros, expulsos da reserva indígena de Nonoai, ou nômades famílias de agricultores de beira de estrada, o mais forte movimento pela terra já conhecido em território gaúcho. No dia 23 de junho de 1983, uma quinta-feira embarrada depois de vários dias de chuva, Olinto foi atropelado numa estrada de chão batido no interior do município de Planalto, encravado na mesma região minifundiária, a pouco mais de 470 quilômetros de Porto Alegre. Uma ambulância da prefeitura ainda o levou a um hospital próximo, no município de Passo Fundo. Mas lá o corpo já chegou sem vida. E assim foi conduzido para o acampamento de colonos provisoriamente instalado no município de Ronda Alta – para onde tinham sido levados os sem-terra de Natalino. Olinto foi o sétimo a morrer entre os que recusaram a oferta de terras no norte do país. E este foi o sétimo pano branco amarrado pelos colonos no alto da Cruz de Natalino, o símbolo da resistência. Olinto foi enterrado sem honras. Ao baixar para a cova, o corpo estava recoberto apenas por alguns trapos cedidos pela vizinhança do cemitério”.
ANDRÉ PEREIRA
Porto Alegre/RS 2026