Diario_de_Bordo
Não se aproximem demasiadamente afoitos da câmera empunhada por Jacqueline Joner. Pode parecer uma câmera comum mas não e’ Essa máquina está possuída por um poder único, ao qual somente vaidade ou ignorância extremas impedem de reconhecer, A câmera, nas mãos de Jacqueline, capta as nuances da luz, do tecido, da epiderme, da madeira, do aço, Mas, e eis seu poder enorme, capta, mais que o olho, mais que o tato, o que somos por dentro e nem sempre sabemos. Se é um poder mágico ou sobrenatural, não tem importância. É o poder do artista. Na frente dessa câmera incorruptível o tolo é irremediavelmente tolo, assim como o vaidoso não pode esconder seus delírios mais ridículos, nem o medíocre sua mediocridade. Nem amargura ou ironia, tampouco visão cáustica da vida ou desencanto. Suas fotos fixam o lúdico, a nobreza e a dignidade do fotografado, quando as tem, estão lá, intactas, e a angustia, o tédio, a esperança, a coragem e os sonhos mórbidos. A arte deJacqueline é feita de uma intuição profunda, essência da grande arte. Seu poder não se explica com filtros miraculosos, qualidade do papel ou laboratórios sofisticados. Jacqueline Joner fotografa a alma das pessoas. Não há explicação para poder tão terrível.
Tabajara Ruas 1989
O FUNERAL DE OLINTO SOITEIRA
Pouco se sabe de Olinto Teixeira de Araújo, Mas se conhece que ele tinha 53 anos. E nessa idade o homem já sabe o que foi feito de sua vida. Olinto não tinha conseguido muito: arrastando a fome de seus oito filhos estrada a fora, vivia do serviço de trabalhar na roca de patrões que mudavam a cada virada de inverno. Tinha conseguido também um nome próprio _ chamavam-np Soiteira, pela habilidade que demonstrava ao lidar com a confecção de objetos de couro. Mas isso nunca lhe rendeu maiores ganhos. Nos últimos anos, Olinto viveu nos contornos da região do Planalto Médio, maior zona agrícola do Rio Grande do Sul, beirando como outros sem-terra, a região do Alto Uruguai, onde se localiza a mais pobre zona de minifúndios do Estado. Sabe-se também que o Soiteira era um dos homens que acamparam na Encruzilhada Natalino, formando, junto com seus companheiros, expulsos da reserva indígena de Nonoai, ou nômades famílias de agricultores de beira de estrada, o mais forte movimento pela terra já conhecido em território gaúcho. No dia 23 de junho de 1983, uma quinta-feira embarrada depois de vários dias de chuva, Olinto foi atropelado numa estrada de chão batido no interior do município de Planalto, encravado na mesma região minifundiária, a pouco mais de 470 quilômetros de Porto Alegre. Uma ambulância da prefeitura ainda o levou a um hospital próximo, no município de Passo Fundo. Mas lá o corpo já chegou sem vida. E assim foi conduzido para o acampamento de colonos provisoriamente instalado no município de Ronda Alta – para onde tinham sido levados os sem-terra de Natalino. Olinto foi o sétimo a morrer entre os que recusaram a oferta de terras no norte do país. E este foi o sétimo pano branco amarrado pelos colonos no alto da Cruz de Natalino, o símbolo da resistência. Olinto foi enterrado sem honras. Ao baixar para a cova, o corpo estava recoberto apenas por alguns trapos cedidos pela vizinhança do cemitério.
Humberto Andreatta 1983
Não mais capina, não mais o arado.
E 53 anos depois que veio ao mundo para fazer produzir o grão fincado terra, o colono Olinto Soiteira, de Nova Ronda Alta, Se incorporou a própria terra. Sua história será contada apenas durante a efêmera sobrevivência do sétimo pano brancoAmarrado no alto da cruz de Natalino – a sétima morte entre os que resistiram na Encruzilhada. Olinto, ao cabo da vida, Não cumpriu com sua tarefa de destino. Faltou-lhe onde colocar a semente. O breve relato da sua morte é o resumo da saga de uma legião de sacrificados, os sem-terra, nascidos no estado-celeiro De um país que seria o próprio celeiro do mundo. Num curto período de 10 anos, esses colonos, a quem foi entregue Trabalho de semear o chão, acabaram tendo que mudar o rumo da vida. Não mais capina, não mais o arado. Nem a Criação, as rezas unidas em família, as vezes nem família. Mudou a cara, e expressão, tudo: veio a fome, que não havia. Faltou a roupa, e o inverno tornou-se mais frio. Foram todos para o Natalino, e de lá se espalharam em busca da sobrevivência. Mendigaram na capital. A custo, alguns Seguraram lágrimas e saudades e tomaram a rota do Norte. Outros,, hoje, ainda resistem. Mas aos poucos, acabaram Olinto – serão, em breve, o oitavo e o nono e os próximos panos brancos açoitados pelo vento na cruz da Encruzilhada.
Humberto Andreatta
Porto Alegre – Solar dos Câmara 22 julho a 6 de agosto de 1983
Via crucis dos colonos gaúchos
A objetiva da câmera não capta o essencial, apenas tenta reproduzir determinador enquadramentos da realidade. Em raríssimas ocasiões ela sucumbe às batidas do coração de quem está além do olho selvagem e mecânico para documentar a trajetória dos deserdados. A mostra O Funeral de Olinto Soiteira”, que reune fotografias da ex-editora fotográfica do Coojornal de Porto Alegre, e dois outros excelentes profissionais, Luiz Abreu e Genaro Joner, é um caso exemplar: trata-se de um brilhante e sensível registro de como a monocultura da soja, no Rio Grande do Sul, destruiu não apenas a terra mas os que viviam e ainda vivem nela.Impossível controlar a emoção diante da falta de perspectiva daqueles que acreditaram na propaganda oficial e vivem, hoje, a morte de ontem e do amanhã. Exatamente como colono Olinto Teixeira de Araújo, morto no dia 23 de junho deste ano e enterrado com trapos rotos cedidos por outros miseráveis da maior zona agrícola do Rio Grande do Sul, sob uma chuva que pronuncia dias piores para quem acreditou em dias melhores. Triste ironia. Inconsolável memória. Jacqueline chegou a Nova Ronda Alta, município para onde foi conduzido o corpo sem visa de Olinto Teixeira, mais conhecido pelos companheiros como Soiteira, por trabalhar com objetos de couro, um dia após o colono ter sido atropelado numa estrada do município de Planalto. Vinha acompanhada de seu irmão, Genaro, também fotógrafo, para documentar a saga dos famintos e desesperados colonos, e, ao chegar, colocou de lado a máquina com o seu olho selvagem, Tinha outra missão a cumprir: amamentar o pequeno Arnaldo, um menino de oito meses, cuja mãe, igualmente faminta, nada tinha a oferecer além de magras tetas sugadas pelo vampirismo do modelo exportador. Confesso que é difícil traduzir com palavras essa situação limite. Uma foto arranca de tua garganta um grito ancestral, bíblico, de quem não contenderá, nem gritará, nem ao menos será ouvido nas praias: uma criança, quase um bebê, com olhos contaminados pela doença e invadidos por pequenas moscas, dessas que acompanham os séquitos de morte e marca, o final de uma saga melancólica de dor e miséria. Essa saga, no caso da mostra resulta dos dez anos de monocultura da soja num dos mais ricos Estados brasileiros, da expansão dos latifúndios, da situação cada vez mais difícil dos colonos submetidos ao garrote vil da política agrícola. Hoje no Rio Grande do Sul, segundo dados da Federação dos Trabalhadores na Agricultura, existem 140 mil famílias sem terras. Há quatro anos, os três fotógrafos autores da mostra do Centro Cultural,em parceria com Eneida Serrano publicaram um livro-relato dessa angustiante situação, “Santa Soja”, de certo modo um prólogo das impressionantes fotos que exibem agora na mostra Ö Funeral de Olinto Soiteira, uma síntese da angustiante sucessão de acontecimento que prolongam a morte, antes, existia vida. Os políticos, unidos a Thanatos, patrocinam esse desespero. A câmera apenas registra. O olho selvagem da máquina também é o do homem.
Antonio Gonçalves Filho
Folha Ilustrada 9 de novembro de 1983 pag 35
Jacqueline Joner
Em 1983, a sensibilidade do jornalista Antonio Gonçalves Filho feriu-se numa cara de criança, em P&B, os insetos vicejando ao redor dos olhos, Sugando feridas e ranhos, o menino com face retorcida para um choro que não vinha nunca: cara, bichos, choro – tudo convivia em paz Sem perspectiva e há tempos“Confesso que é difícil traduzir com palavras esta situação limite”escreveu ele na Folha de São Paulo. “É uma foto que arranca da tua garganta um grito ancestral, bíblico…” Era uma das centenas de fotos da agricultores feita por Jacqueline Joner. “Certas fotos de Jacqueline me lembram quadros de Millet, aquele que influenciou Van Gogh”escrevera alguns anos antes – em 1979 -Ignácio de Loyola Brandão. Outras são classes no estilo épico=caboclo como se Eisenstein tivesse passado pelo Brasil. Ela organiza o claro-escuro e a distribuição dos personagens de uma forma clássica” escreveu a atual crítica de ARTE de Veja, Angélica Moraes Claro escuro, Luzes e Sombras. Ano passado Jacqueline fez para MPM/Samrig exatamente isso: Luzes e Sombras, um Olhar sobre o Século, com os retrato dos melhores escritores gaúchos. Retratos. Jornalismo fotográfico é momento, é movimento? Se existia entre nós esta convicção, ela caiu com o Diário do Sul. Retratos, belos, inconfundíveis, delatores retratos.”As fotos de Jacqueline captam o que somos por dentro e nem sempre sabemos”disse Tabajara Ruas. Que ela não saiba nunca, mas às vezes deixo escapar o gesto e passo os dedos sobre suas fotos. Surpreendo-me sempre de novo, por não detectar reentrâncias, espaços, temperatura própria.As fotos de Jacqueline Joner estão em meia dúzia de livros. Três estão no Georges Pompidou, em Paris. Outras em exposições coletivas itinerantes em salas e museus da Europa e América Central. E agora, a última delas, enfeita postes, muros, paredes e salas do Rio Grande com o rosto sereno de Tarso Genro. Jacqueline não tem auto-retratos. Talvez tema a própria lente. Já pensei em fotógrafa-la enquanto dorme. Fico por longos momentos observando os quase imperceptíveis movimentos da boca, dos olhos, os murmúrios. Por fim , desisto.
Ayrton Kanitz O Continente pag 24 1983
COLONOS
Hoje faz um ano que ocorreu o massacre de Carajás. Hoje, também, os integrantes da Marcha dos Sem Terra pela reforma agrária chegam a Brasília após dois meses de caminhada. É a luta por um pedaço de terra.O movimento não é novo. Remonta na história, como no fim da década de 70, no Rio Grande do Sul, quando terminava a saga da soja. Foi tão grande a euforia naqueles anos que até músicas folclóricas foram criadas na ocasião. A monocultura desgastou o solo,O colono empobrecido começou a ser expulso de suas terras e saiu em busca de novas paragens. O destino quase sempre era a cidade. Foi nesse cenário que um grupo de fotógrafos gaúchos, Jacqueline Joner, Luiz Abreu, Genaro Joner e Eneida Serrano, documentou, entre 1978 e 1981. o êxodo destes colonos . O movimento ainda não se chamava dos sem terra(MST), mas foi uma das sementes de seu nascimento. O ESTADO resgatou trabalho de um dos fotógrafos gaúchos, Jacqueline Joner, que mostra esse momentosa luta pela terra. Durante três anos ela fotografou a vida desses agricultores, morou com os colonos e acompanhou sua mobilização. Em depoimento em seu livro Ponto de Vista, publicado em 1979, Jacqueline conta: “Tudo começou de uma maneira casual, obrigada profissionalmente a fotografar agricultores, fui aos poucos me envolvendo com o problema do colono minifundiário.”Nesse processo ela contou com as próprias origens, a infância passada em uma pequena cidade do Estado e a descendência de colonos alemães. As fotos em geral são posadas, o que atesta o envolvimento fotógrafo/fotografado.Nesse tipo de situação torna-se fundamental a aproximação. É preciso encontrar o melhor meio de obter a colaboração do fotografado. Essa aproximação tornou-se para mim uma necessidade, preciso falar com eles, saber alguma coisa de sua vida, da terra que plantam, talvez seja exatamente isso: preciso estabelecer uma cumplicidade com eles. E afirma: ”Se para mim o minifúndio vive hoje uma situação dura e injusta é evidente que vou procurar acentuar isso em minhas fotos e ressaltar a expressão dos rostos dos colonos mostrando o reflexo da situação. Jacqueline procurou retratar a falta de perspectiva e alegria das feições dos pequenos agricultores. No começo dos anos 70, o colono poderia sorrir nas fotos, diz. Hoje, isso não acontece. “Agora o que se vê nos seus olhos é um brilho de insatisfação e impotência; tentei captar e transmitir isso.”, resalta. A fotografia é o instrumento de que ela dispõe para contribuir com as mudanças. “Sei que sozinhas as fotos não vão mudar nada, mas são uma pequena contribuição dentro de um contexto maior de tendências para tentar acabar com as injustiças sociais.” Para ela não é ousadia dizer que a fotografia faz parte de uma frente ampla de linguagem social que está comprometida com a realidade. Hoje, passados quase 20 anos, as imagens de Jacqueline continuam atuais, As expressões dos rostos, mãos e pés dos sem-terra continuam as mesmas. Talvez por isso Jacqueline hoje não queira falar sobre o tema, mas dá um recado; Olhem para as fotos, elas já dizem tudo, não é preciso nenhuma palavra.”
Simonetta Persichetti
O Estado de São Paulo caderno 2 17/04/1987
OS EMPREENDEDORES
Quando o Jornal do Comércio iniciou a publicação da série Os Empreendedores, a significativa repercussão que o trabalho obteve confirmou a nossa expectativa se que havia grande curiosidade dos leitores sobre a história dos homens de negócios e suas iniciativas. Mas foi exatamente isto que reforçou uma pergunta que atormentava a todos na fase de preparação da série: por que ninguém havia realizado uma idéia aparentemente tão óbvia? Foram suficientes cinco ou seis semanas para que descobríssemos a resposta. De uma certa forma, o Jornal do Comércio e os dois esmerados profissionais que realizaram a tarefa, o repórter André Pereira e a fotógrafa Jacqueline Joner, fomos todos vítimas de nossas próprias ambições. De fato, ao definir as regras básicas da série, foram estabelecidos alguns princípios que pareciam extremamente razoáveis para quem desejava concretizar um trabalho editorial de alta qualidade: os perfis ocupariam o espaço padrão de três páginas, as fotos seriam realizadas em estúdio, os títulos das histórias seriam feitos com o nome do entrevistado e um adjetivo que ajudasse a defini-lo e cada um dos vinte e seis personagens, na foto, seria acompanhado de alguma coisa simbólica, normalmente um objeto.Os jornalistas contratados pelo Jornal do Comércio suportaram estoicamente todos os dissabores de uma caminhada que pode ser definida como árdua. E é fácil compreendera razão das dificuldades. As pessoas que podem ser reconhecidas como empreendedores são terrivelmente ocupadas e precisavam abrir dois rombos em suas agendas para satisfazer o jornal. O primeiro problema era o número do horas que precisava ser gastona entrevista com o André(em alguns casos foram necessárias várias secões de entrevistas para arrancar as histórias completas). E o segundo problema que em alguns casos foi muito mais que um simples problema, era conseguir tirar os empresários de suas empresas em Porto Alegre ou no interior, faz-los ir ao bem montado estúdio fotográfico da Jacqueline e gastar bem mais do que um simples par de horas posando para uma fotógrafa – uma das melhores do País, com certeza – que nunca está satisfeita com o resultado que está obtendo. Em várias ocasiões durante o que pode ser denominado de a grande peregrinação, ouvimos secretárias escandalizadas com a simples idéia de retirar seus caríssimos chefes dos seus protegidos escritórios para posar como um modelo qualquer. Ïh meu filho, isto vai ser muito difícil”disse uma delas. Ele não sai nem para reconhecer firma. O pessoal do cartório é que vem até aqui”Depois de vinte e seis semanas nó acreditamos piamente que isso acontece. Mas no caso mencionado, a curiosidadenfoi nossa aliada e o relutante empreendedor terminou comparecendo ao estúdio e adorando a experiência de, repentinamente, se flagrar totalmente controlado pela voz rouca e ao mesmo tempo doce de uma grande artista. A guerra de agendas foi vencida e foram conseguidas 26 entrevistas e 26 fotos, enquanto outros problemas infindáveis surgiam no caminho de Os Empreendedores. As dificuldades eram do tipo marca/desmarca entrevistas e fotos, que objeto usar, como manter o padrão dos títulos sem repetir o adjetivo, por que manter o padrão dos perfis, etc,etc,etc. Mas a série proposta está completa. E, foi possível trocar, através das histórias de nossos entrevistados de suas empresas um painel tão interessante quanto útil sobre essas pessoas capazes de enxergar as oportunidades de negócios e lançar-se à construcaode seus empreendimentos; e, adicionalmente, foi possível mostrar mostrar o que acontece com elas no decorrer do tempo. Certamente algum acadêmico se debruçará sobre essas histórias, em algum momento, com o objetivo de procurar os traços comuns que caracterizam esses homens notáveis e que eventualmente passem desapercebidos aos leitores. A impressão que todos temos, aliás, ao ler os vinte e seis perfis, é simplesmente esta: O sucesso no mundo dos negócios pode ser alcançado pelas mais diferentes personalidades. Mas ficamos sabendo também que ninguém alcança o êxito completo e reconhecido por todos sem determinação, espírito de sacrifício e a convicção inabalável de que no final tudo dará certo.Enfim, deu muito trabalho, ocorreram muitas dificuldades mas resultado valeu a pena. Portanto estamos mais do que preparados para começar tudo de novo no ano que vem aí Portanto a série II.
Hélio Gama Filho , Jornal do comercio 8/12/1995
Camila, Minha Filha
Do Atelier da Fotografia de Jacqueline Joner tem saído propostas quase sempre, ousadas. Os leitores de Zero-Hora vão acompanhar atéo fim deste mês a série de retratos que estão sendo publicados no Informe Especial desde a última quarta-feira. Gaúcha, nascida em 1953 sob o signo de capricórnio em Santa Rosa, Jacqueline vive em Por Alegre desde 1954. Há 20 anos trabalha em jornais e revistas. Entre os ensaios mais premiados está o Funeral de Olinto Soiteira, de 1983, sobre o conflito agrário no Rio Grande do Sul. Três fotos dessa série estão em exposição no Museo de Arte de São Paulo, que até 26 de janeiro mostrará a coleção Pirelli / MASP de Fotografia. Fotos doFuneral também fazem parte do acervo George Pompidou de Paris. A propósito das fotos adquiridas, a cuíca Angélica de Moraes comenta que “Jacqueline consegue potentes imagens de denúncia social sem abrir mão da qualidade estética, conferida pelo refinado uso da luz, que desenha o contorno das figuras contra o cenário escuro, dentro da melhor tradição do cinema realista italiano.” Por avaliações como essa, Jacqueline Joner é a primeira fotógrafa brasileira a integrar a home page da revista norte-americana Photo District News na Internet, com 10 fotos de diversos períodos até a produção atual que podem ser acessadas por meio do endereço: http://www,pdn=pix.com. Em 1990, com as características descritas por Angélica, Jacqueline fotógrafo os mais inusitados casais, cada par tendo um toldo de lona como único cenário para o ensaio Retratos de Casamento. Convidada pela Revista ZH, Jacqueline produzir o estudo Camila, Minha Filha. “É um carinho que faço nela e em mim”, foi a justificativa maternal. Camila de 14 anos é bailarina da Academia de Dança Salma Chemalle. Carícia feita pela mãe talentosa, três fotos confirmam o apuro técnico, a qualidade estética, o refinado uso da luz.
Carlos Urbim
Porto Alegre – Zero Hora pag 13 dez de 1996
Uma dupla revelação
As imagens que cobrem a superfície destas páginas resultam de uma dupla revelação. A primeira decorre do processo – em tempos nos quais qualquer telefone celular faz fotografias, chega a ser comovente alguém desprezar artefatos digitais para produzir retratos e persistir na centenária técnica de sensibiliza grãos de prata com luz. A segunda revelação se refere ao conteúdo que vem a público pela primeira vez, Jacqueline Joner disponibiliza para publicação parte do impressionante ensaio Que tem como modelo o Mauro, seu companheiro paciencioso que pousou em cinco sessões de no mínimo oito horas realizadas em outubro e novembro de 2004. Embora as fotos não sugiram um cenário específico, é no ambiente doméstico que ocorreu a obtenção de cerca de mil imagens. A mobília foi afastada e um rolo de papel preto fixado na parede serviu de fundo infinito. A lâmpada presa no forro contou com o reforço de uma luz de estúdio e a combinação e a combinação das duas fontes incidiu sobre o corpo magro, muito magro do modelo de pele negra coberta por azeite de oliva. No interior da câmera Nikon 35mm, rolos e rolos de filme Tri-X ASA 400, da Kodak, deslizavam ao ritmo do mergulho da fotógrafa em busca do específico.Jacqueline, uma das mais importantes fotógrafas do Rio Grande do Sul, decidiu que o processo não seria pautado por muita sofisticação técnica, mas, mesmo assim as imagens resultantes precisavam comover e se distinguir pela qualidade. Para tanto foi fundamental a segura direção da autora, que conduziu seu modelo-marido as essões vertiginosas que chegavam a exaustão. Ao final de cada uma, o casal guardava o equipamento, limpava o ambiente, tomava banho e desabava na cama para amainar as dores que se apoderavam dos corpos da fotógrafa e do modelo. Uma vez assisti a uma apresentação de fotos que cobria os principais trabalho de Jacqueline desde os anos de 1970: os colonos emoldurados pelo cenário rural, artistas em seus habitats, empresários mimetizamos em seus impérios, casais encontrados pelo interior do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina… ao final Indaguei: onde vais chegar agora? A curiosidade emanava da percepção de que ela havia mapeado o corpo humano em diversas geografias e proporções, da imensidão do campo ao gabinete, do corpo inteiro ao retrato. Instigada pela pergunta, Jacqueline definiu-o conceito do ensaio que hora se revela: queria chegar aos porosos pelos, aos fluídos. Queria a abstração, o plano fechado. Fragmentos destes quereres se encontram nestas páginas.
Vitor Nechi , revista norte p 21 a 23 2010